Polícia diz que filho de líder rural foi morto por traficantes que queriam terra para criar cavalo e aponta confissão de suspeitos

Integrantes da cúpula das polícias Civil e Militar concederam entrevista coletiva sobre a morte de Jonatas Oliveira, de 9 anos, em Barreiros, na Zona da Mata Sul, e detalharam prisões de suspeitos, nesta quinta (17).
O garoto Jonatas Oliveira, de 9 anos, foi assassinado por pessoas envolvidas em tráfico de drogas que se desentenderam com o pai dele, o líder rural Geovane da Silva Santos, por causa de um pedaço de terra para criação de cavalos. É o que aponta a investigação conduzida pelo delegado Marcelo Queiroz, designado especialmente para o caso (veja vídeo acima).
Dois homens foram presos e um adolescente apreendido na quarta-feira (16) por envolvimento no crime. Segundo o delegado, um dos homens e o adolescente confessaram a participação. O outro homem negou o envolvimento no crime. Ele acrescentou que pelo menos outras três pessoas estão foragidas. Duas delas são apontadas como responsáveis pelos tiros que mataram Jonatas.
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O assassinato aconteceu em 10 de fevereiro, no Engenho Roncadorzinho, em Barreiros, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, distante 110 quilômetros do Recife. O garoto estava embaixo da cama com a mãe quando foi executado por homens encapuzados. Geovane levou um tiro no ombro.
Os detalhes sobre as prisões foram repassados pelas Polícias Civil e Militar, em entrevista coletiva, nesta quinta (17), um dia após as capturas. Segundo a corporação, outro suspeito de envolvimento, que está preso desde 2018 por outros crimes, também foi identificado. Ele seria o líder do grupo criminoso.
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De acordo com o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), os dois suspeitos presos na quarta são Manoel Bezerra Siqueira Neto e Michael Faustino da Silva. A polícia informou que eles não possuem antecedentes criminais.
Os dois passaram por audiência de custódia nesta quinta e tiveram as prisões confirmadas. O nome do adolescente não foi divulgado em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Conflito agrário
Ao longo da investigação, movimentos sociais, a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetape) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) apontaram que o crime teria relação com um conflito agrário na região.
Sobre essa possibilidade, a polícia afirmou que não pode descartar a questão envolvendo um conflito agrário.
"Nenhuma hipótese está descartada até o envio dos autos. Mas hoje a linha mais forte é essa questão envolvendo esse grupo criminoso especializado no tráfico de droga”, afirmou delegado Jean Rockfeller, diretor de polícia do interior.
Versão apontada pela polícia

O delegado Marcelo Queiroz afirmou que o primeiro passo para encontrar os suspeitos foi conseguir dois nomes de envolvidos. Eles estavam no Engenho Cocal, em Tamandaré, cidade que fica ao lado de Barreiros (veja vídeo acima).
"Eles disseram que fazem parte de uma rede de droga da região. Um de seus líderes estaria interessado em um pedaço de terra para criar cavalos. Ofereceram um valor bem abaixo do mercado e o dono rejeitou. No linguajar deles 'ficaram na mágoa' e foram cobrar ao pai da criança", disse.
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Ainda de acordo com a polícia, na tarde do crime, o grupo foi ao engenho, para "tentar pegar a terra". À noite, seis ou sete homens voltaram. Parte do grupo entrou na casa e rendeu a família.
"Eles atiraram no pai da criança, que conseguiu fugir. A versão deles é que acharam que o pai conseguiu se esconder embaixo da cama e alvejaram acidentalmente a criança. Preliminarmente a linha de investigação é essa. Há pessoas no sistema carcerário envolvidas com o crime”, acrescentou.
O delegado disse, ainda, que Jonatas levou três tiros. "Mais de uma pessoa disparou na criança", afirmou Queiroz.
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O policial comentou que um dos homens presos negou a participação no crime. O adolescente e o outro suspeito que tem mais de 18 anos confessaram.
"Segundo a versão deles, os autores dos disparos são dois e estão foragidos. Mas a polícia não descarta a possibilidade de ter sido um deles a efetuar os disparos", disse. A polícia acredita que até nove pessoas podem ter envolvimento no crime.
Ainda sobre o dia do crime, o delegado apontou que as equipes identificaram fogueiras e alguns utensílios no esconderijo dos suspeitos. "Era relativamente perto da casa do Geovane. Atravessaram um rio e conseguiram chegar”, observou o delegado.
A Polícia Militar informou, na coletiva, que usou grande aparato para encontrar os suspeitos. Participaram das ações viaturas extras e a tropa de elite, segundo a PM.
Investigações
O promotor de Justiça de Barreiros, Júlio César Cavalcanti Elihimas, afirmou que os suspeitos foram levados para a Delegacia de Palmares, na Zona da Mata Sul.
Na quarta-feira, as prisões foram decretadas pelo juízo da comarca de Barreiros como parte das investigações do homicídio.
A audiência de custódia foi realizada na Central de Audiências de Custódia de Palmares, responsável pelas audiências de custódia referentes a prisões em flagrante e à comunicação de cumprimento de prisões preventivas na comarca de Barreiros
Segundo o promotor Júlio César Cavalcanti Elihimas, o magistrado responsável analisou se houve algum tipo de abuso policial durante o cumprimento do mandado de prisão e manteve a detenção dos suspeitos.
Por meio de nota, o TJPE informou que foi definido na decisão judicial que os dois suspeitos "devem ficar em celas separadas dos demais presos, para evitar ameaças à integridade física dos investigados a pedido dos próprios custodiados".
Eles foram levados para o Presídio Rorenildo da Rocha Leão, em Palmares, onde ficam à disposição da Justiça.
O adolescente foi internado na unidade da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Funase) do Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife.
Mãe do adolescente
Na manhã desta quinta-feira, a mãe do adolescente, que não foi identificada em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), disse que o filho é inocente e que, no horário do crime, o garoto estava na casa de um amigo jogando videogame.
Segundo a mãe, o adolescente mora com o tio no Engenho Cocal Grande, em Tamandaré, cidade vizinha ao município em que ocorreu o crime. Ela disse que o filho não conhecia o pai de Jonatas Oliveira.
"Meu filho nem nesse engenho vai. Meu filho vai fazer o que lá? Meu filho estava dentro de casa, tinha saído da casa do coleguinha, vindo para casa. Eu tenho testemunhas, meu tio estava em casa, a menina que ele estava lá jogando Free Fire também pode confirmar isso. Como é que meu filho está aí pagando por uma coisa que ele não fez?", afirmou.
A mulher disse que o filho foi capturado em casa, quando estava almoçando. Um dos presos, segundo ela, é o amigo com quem o menor estava jogando videogame. "Ele está assustado, ele falou para mim 'mainha, eu não matei a criança; mainha, eu nem estava lá; mainha, eu estava jogando Free Fire", declarou.
O crime
Jonatas Oliveira estava com o pai, a mãe e outras três crianças dentro de casa. O pai do menino relatou que os criminosos disseram que era da polícia e gritaram por "Jeová", nome parecido com o de Geovane.
Os homens invadiram a casa e balearam o líder rural no ombro. Para tentar se esconder do tiroteio, o menino foi para debaixo da cama, onde já estava a mãe dele, mas acabou sendo assassinado. Ela e as outras três crianças que estavam no local não ficaram feridas.
Advogados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) informaram que, próximo à casa da família, foi encontrada uma área em que possivelmente os assassinos montaram campana para acompanhar os movimentos dos parentes de Geovane.
Após serem baleados, pai e filho foram levados para o Hospital de Barreiros, mas a criança não resistiu aos ferimentos.
O conflito

A morte de Jonatas ocorreu em uma área de litígio agrário. Os moradores mais velhos do engenho eram funcionários ou filhos de trabalhadores da Usina Santo André, falida há 22 anos.
Eles relataram que ninguém recebeu salários ou indenizações quando a usina fechou e os que já viviam na região permanecem no local desde então.
Segundo a Federação de Trabalhadores na Agricultura (Fetape), a empresa de agropecuária Javari arrendou as terras da usina em 2007, quando começou o plantio e a colheita de cana-de-açúcar. Os conflitos começaram em 2015. Apenas em 2018, 11 anos depois do arrendamento, a Javari entrou na Justiça com uma ordem de despejo.
O processo segue à espera da decisão do Tribunal de Justiça de Pernambuco. Os desembargadores não proferiram decisão, mas solicitaram um entendimento entre as partes. A mediação não aconteceu porque, logo depois, o Poder Judiciário entrou em recesso forense.
Recentemente, os conflitos agrários na Zona da Mata se agravaram devido à expansão da pecuária bovina na região da Mata Sul, após a instalação de um frigorífico na cidade de Canhotinho, no Agreste de Pernambuco, o que estaria aquecendo o mercado de terras no interior do estado (veja vídeo acima).
Entre 2020 e 2021, segundo dados parciais, ao menos 58 denúncias de ameaça de morte devido a conflitos no campo em Pernambuco foram registradas pela Comissão Pastoral da Terra. Desse total, 41 ocorreram na Zona da Mata Sul, onde fica o engenho onde Jonatas foi assassinado.
Informações do G1-PE